Osama
CARTOGRAFIA DO CINEMA
Por: Kelvis Sousa
8/5/20262 min read


Esse é o filme que inaugura a série “Cartografia do Cinema”, na qual analisarei um filme de cada país do mundo; com a intenção de compreender as diferentes visões sobre a sétima arte e crescer durante toda essa jornada. Não será uma caminhada fácil, pois Osama, primeiro filme escolhido de uma lista de países em ordem alfabética, já me causou problemas em algo tão fundamental quanto sincronizar as legendas. Mas para além disso, o Afeganistão, abrindo essa lista, é uma sopa cultural tão diversa e marcada por tantas guerras num espaço tão curto de tempo que, mesmo para um especialista estrangeiro, abordar o tema ainda é arranhar a superfície.
O longa Osama, lançado em 2003, dirigido por Siddiq Barmak, é o primeiro longa-metragem produzido após a queda do regime Talibã em 2001. Período esse em que será ambientada a narrativa da obra em questão. Na trama vamos acompanhar uma menina (Marina Golbahari) e sua mãe (Zubaida Sahar) que tentam sobreviver no regime do Talibã que reprime veementemente o direito feminino; na qual as mulheres passam a ser proibidas de andarem desacompanhadas de seu marido na rua, são proibidas de direcionar a palavra a homens que não são seus maridos, proibidas de trabalhar etc. Após essa tomada do poder, a vida cotidiana passa a ser administrada pelo medo para quem nasce mulher. Num ambiente em que aparenta não haver esperanças, sem um homem para validar a existência dela naquela sociedade, a mãe se vê obrigada a disfarçar a sua filha de menino para conseguir transitar nesse mundo misógino agora com o nome de Osama.
A direção da obra é simples, porém astuta nos detalhes. Trabalhando o silêncio como a calmaria dos cidadãos que é interrompida ao som de tiros, fazendo uso da sonoplastia para comunicar quem detém o poder na tela. Outra sacada do diretor é quando ele opta por não nomear suas personagens femininas, pois, elas não têm identidade nesse regime. A filha só receberá um nome, Osama, quando se disfarçar para adentrar o mundo masculino, finalmente recebendo uma identidade. Assim o filme transmite os horrores do Talibã, com os combatentes repreendendo a mãe ao mostrar o pé enquanto anda de bicicleta: quase como uma repreensão ao diretor por mostrar algo proibido. O poder nessa sociedade é algo reservado apenas aos homens, onde a possibilidade de se divertir só será possível para Osama enquanto for vista como tal.
Mesmo o filme se passando em um país com uma história e cultura muito diferente da nossa, o drama da mulher que vive indefesa em uma sociedade patriarcal é universal. Por isso cabe a nós olharmos para filmes como Osama e não só pensá-lo como algo muito distante, mas enxergar um futuro possível que devemos lutar para nos distanciar o máximo que pudermos. E se a ideia dessa série é conhecer um recorte sócio/cultural de um país através do cinema, começar pelo Afeganistão mostra que, apesar dos esforços em apagar certas histórias, o cinema vive.